Judaísmo reformista: uma reflexão pessoal
Há quase 40 anos, o movimento reformista deu alguns passos que o afastariam um tanto da visão dos demais movimentos:
1) patrilinearidade como critério para aceitação como judeu - desde que o filho de um pai judeu e mãe não-judia seja educado em meio judaico.
2) estímulo ao outreach, ou seja, a abordagem aos chamados "casais mistos". Ao contrário de afastá-los, atrai-los para dentro da comunidade. Visto pelos demais setores como um estímulo à assimilação, os líderes do judaísmo reformista aceitaram a assimilação como um fato e passaram a lidar com ela com as mesmas armas, digamos assim: fazendo com que não-judeus assimilem o judaísmo, e não o contrário. Apesar da gritaria - externa e tb interna - os resultados começam a despontar. 40 anos depois, alguns dados apontam que o número de filhos de casamentos mistos em escolas e instituições judaicas saltou de insignificantes 3% para quase 50%.
Por outro lado, o movimento reformista vem dando uma guinada à tradição, cujos resultados mais aparentes são o novo sidur do movimento e o estímulo cada vez maior à cashrut e ao respeito ao Shabat, de modo que faria seus fundadores virarem no túmulo. A combinação da inclusão real dos casais mistos e suas famílias ao meio judaico, bem como o trabalho mais enérgico em busca de uma prática judaica mais densa, me parecem fazer parte de um esforço em lidar com a realidade do nosso tempo, que é diferente da época do surgimento do movimento reformista.
Há 200, 150, 100 anos atrás, os reformistas, liberais, conservadores (dissidentes do reformismo) conheciam mais a liturgia e as tradições do que nós hoje, talvez até mesmo mais do que muitos que frequentam o meio ortodoxo atual. Casamentos mistos praticamente inexistiam. Hoje em dia, provavelmente em consequência das escolhas do passado, surgiram outras situações: ao contrário de se manterem numa prática judaica renovada, muitos judeus abandonaram a vida judaica ou a tornaram muito superficial. A reflexão sobre isso traz o movimento de volta às tradições, que me parece, é um pedido da própria comunidade. Parece haver uma nova e intensa reforma do judaísmo reformista, a reforma da reforma.
Diante do desafio da assimilação, a opção reformista é trazer de volta seus filhos e, com eles, suas famílias, ainda que sejam inter-religiosas, com o intuito de que, na próxima geração, estas se tornem famílias judias "de pai e mãe". A esta nova geração se quer oferecer um judaísmo mais denso de conteúdo, talvez mais do que a atual geração é capaz de passar à próxima. Talvez em 50 anos haja menos casamentos mistos entre os netos desta geração, mas com avós e bisavós de casamentos inter-religiosos, ou que um ou mais deles tenha optado por integrar o povo judeu formalmente, por meio da conversão ao judaísmo. Se isso ocorrer, pode ser - pode ser - teremos comunidades mais coesas religiosa e socialmente e, espero, mais tolerantes também. Porque hoje em dia, se por um lado parece haver o esforço das lideranças em receber bem o convertido ou o parceiro não-judeu de uma família, o mesmo não ocorre nas famílias judias, para as quais o casamento misto ainda é visto como algo próximo a uma desgraça.

o último número da Reform Magazine traz uma série de artigos sobre o que chamam de "A Revolução do Outreach". Um passo para "sair do armário" me direção a um judaísmo parcialmente proselitista - sim, isso mesmo... - que por ora estende seus braços aos casais mistos, mas que podem se estender a casais assim não somente desta, mas de gerações passadas. Como assim? A gerações e gerações de pessoas com antepassados judeus, que talvez remontem não apenas às gerações que se assimilaram nos últimos 200, mas nos últimos 500 anos, seja por abandono dos valores judaicos pura e simplesmente; por abandono em busca de aceitação social; ou por terem sido forçados à conversão, cujo caso mais conhecido é o dos bnei anussim, os "descendentes dos forçados", conhecidos tb como marranos. Em vista disso, alguns rabinos passam a falar abertamente que não somos apenas 13 milhões de judeus no mundo, os "remanescentes", mas o outreach poderia alcançar uma parte das dezenas de milhões que, de bom grado, gostariam de fazer parte formal do nosso povo.
É uma postura ousada e polêmica, mas é uma resposta à estagnação ou diminuição do povo judeu nas últimas décadas. A outra resposta - fechar as portas, assumir-se como a única postura "legítima" e desqualificar as demais como "assimilacionistas" e não-judaicas, e estimular o número de filhos, é outra saída, sem dúvida - na minha opinião, tão ousada e polêmica quanto, pois diante da realidade atual, contrapõe pessoas da mesma família e impõe um punhado de opções à vida judaica, empobrecendo, a meu ver, o pluralismo que sempre fez parte da constituição do nosso povo.
Prefiro o clássico ditado "dois judeus, três opiniões" ao "um judeu, uma opinião".
Quanto ao movimento conservador, mereceria uma outra longa reflexão, mas às vezes me parece que, filho de mãe judia reformista, encontrou para a mãe um pai "modern orthodox". Enquanto a "mãe" aceita e abraça rabinas, rabinos gays e outras resoluções polêmicas, o "pai" reforça a prática e o estudo das fontes. este pai muitas vezes se mostra-se enérgico e intolerante, adora dar ordens para manter o controle da família, ainda que isso entre em conflito com o desejo de uma família igualitária e inclusiva. Não é um casamento fácil, este. Não é fácil ter práticas ortodoxas e aceitar conquistas reformistas... da centenária busca de identidade. Mas ainda acho que é uma possibilidade, em fase de amadurecimento em busca de uma identidade clara, e me parece haver um grande esforço neste sentido dentro do movimento massorti, embora não de modo homogêneo.
Enfim, somos uma geração no deserto, uma geração de transição. Para onde? Não tenho idéia, confesso. Embora simpatize com a abertura que o movimento reformista dá aos casais mistos, buscando atrai-los para uma vida judaica, e não afastá-los nem negar-lhes existência, queria ver na prática uma vida judaica mais plena mesmo de conteúdo, inclusive por parte de alguns de seus rabinos. Talvez a próxima geração... quanto ao movimento conservador, também tenho esperança que continue sendo uma geração que estimule o estudo e a prática massorti, e que tenha os braços mais abertos a seus correligionários reformistas, pois o diálogo tem tudo para crescer, não diminuir.
Aos ortodoxos, espero que continuem sendo exemplo de dedicação à vida judaica, mas que busquem uma convivência pacífica com o restante do povo judeu e não vejam a reformsitas e conservadores como assimilacionistas, pois não somos. A ortodoxia tem se mostrado super dinâmica, na verdade. Enfim, que sejam árvores de um mesmo jardim, em que os frutos de uma sirvam para fertilizar e manter saudáveis os frutos das demais.
Uau... foi de bate pronto, mas devo manter. Não sei se pensarei assim daqui a um ano! Mas adoraria ver o movimento reformista absorver a capacidade de estudos do movimento conservador e este absorver a ousadia do reformista; e que suas linhas se cruzem, para na próxima geração termos novas respostas aos novos questionamentos que virão - para uns 35 ou 50 milhões de judeus.
Por fim... messiânicos???

Acredito plenamente que se nos unirmos e nos respeitarmos mais internamente, esta será uma resposta e tanto aos "messiânicos", esta versão de missionários cristãos. Ao contrário de sermos "salvos" por eles, que mais uma vez - como fizeram nossos antepassados com outros missionários - nos salvemos deles. Para isso, precisamos da cooperação e re-união entre ortodoxos, conservadores e reformistas cuidando das fronteiras do nosso mesmo jardim. Nisso estaremos não apenas respeitando nossos valores milenares, como também a memória de todos que sofreram nas mãos dos inquisidores, dos que sofreram também com o discurso anti-semita protestante de Lutero e que hoje são constrangidos por certas denominações evangélicas que dizem "para os judeus, seja como os judeus" (não confundir com o diálogo saudável entre judeus e cristãos, respeitando suas diferenças). Iniciativas neste sentido, como a união de ortodoxos, conservadores e reformistas no site www.judeus.org, é um excelente exemplo e me sinto muito bem ao lado de todos eles, pois nosso objetivo é o mesmo: a unidade do povo judeu, em nossa diversidade.
E chega de conversa:-) shavua tov.
Postado por Uri às 21h40
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Steinsaltz, estudo diário do Talmud
Steinsaltz, Daf Yomi
tradução: Uri Lam
Ketubot 110a-b
20 de dezembro de 2007
Ao discutir o sofrimento do pobre, que não pode desfrutar de qualquer melhoria na sua situação, a Guemará cita o Sêfer Ben-Sira ao dizer que “Todos os dias de um homem pobre são ruins”, porque até mesmo o Shabat e os feriados religiosos são difíceis para ele. Além disso, Ben Sira é citado dizendo: “As noites também (são ruins). O telhado dele é mais baixo do que todos os telhados e o seu vinhedo está no alto das montanhas, de forma que a chuva cujas águas escorrem pelos outros telhados caem no seu telhado e a terra do seu vinhedo é lavada e desce para o vinhedo dos outros.”
Estas declarações estão baseadas na passagem de Mishlê - “São maus os dias do pobre, mas se tem coração alegre, sente-se sempre em festa” (Provérbios 15:15) - e a citação parece ser um insight atribuído a Ben Sira.
O Sefer Ben-Sira é um dos livros mais antigos compostos após a conclusão do cânon bíblico. A autoria é de Shimon ben Yehoshua ben Sira, um nativo de Jerusalém e contemporâneo mais jovem de Shimon Hatsadic, antes da era dos chashmonaim (hasmoneus, macabeus...). O livro de Ben-Sira era tido em grande estima após a sua tradução para o grego pelo neto do autor (no ano 132 AEC em Alexandria), porque se tornou largamente conhecido até mesmo entre quem não estava familiarizado com o idioma hebraico. O Sefer Ben-Sira está incluído como obra canônica na Septuaginta (por isso é considerado texto bíblico em muitas outras traduções da Bíblia), e embora as Sábios optaram por vê-lo como um dos sefarim chitsoniím - livros fora do cânon – eles o citam de uma maneira respeitosa ao longo do Talmud, ás vezes referindo-se a ele como parte dos Ketuvim (a terceira e última parte da Bíblia hebraica). Contudo, por confundirem esta obra com outra, conhecida como “Alfabeto de Ben Sira” - uma obra tão popular quanto problemática – encontramos declarações na Guemará que proíbem o estudo do Sefer Ben-Sira.
Para gerações o Sefer Ben-Sira era conhecido apenas por suas traduções, mas recentemente foram encontrados fragmentos deste no original em hebraico (em Massada e em outros lugares). Considerando-se que não faz parte do cânon bíblico oficial, parece que os copistas sentiam mais liberdade ao trabalhar com ele; por isso encontramos diversas versões do mesmo texto. Quando aparece no Talmud, é provável que está sendo citado de cor pelos Sábios, em vez de um texto escrito. As declarações citadas na nossa Guemará, por exemplo, não são encontradas nas traduções existentes ou em manuscritos do Sefer Ben-Sira.
Postado por Uri às 12h07
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Micrá com Café

Nos próximos dias tenho "que rendir lo examen de Micrá", ou seja, fazer uma avaliação oral sobre a Bíblia Hebraica, o Tanach.
Aparentemente pode parecer simples, mas não é. Afinal, poder responder de bate-pronto sobre qualquer assunto, relacionar textos entre si, ou citar fontes clássicas e modernas... estou concentrando meus estudos nisso. Acaba sendo muito bacana, pois se, quando preparo comentários para as porções semanais de leitura da Torá, tenho uma visão mais focada num pedaço, assim estou tendo uma visão mais global do Tanach, como se pudesse vê-lo por imagem de satélite, digamos. Um satélite capaz de tirar fotos do tempo, não do espaço... ou de transformar formas temporais em espaciais. Imagine um globo onde você pudesse ver, do lado oriental, Moisés atravessando o mar com o povo e, do outro lado, Josué atravessando o rio com o povo; num canto Abrahão velhinho, do outro, David velhinho. Um ilustrador talentoso seria capaz de fazer este globo? fica a sugestão. Do meu lado, preciso tê-lo na cabeça até a próxima 4a feira!
E vamos de café e Gingko Biloba para a memória, indicada por meu amigo acupunturista.

E vamos de Gilberto Jew: "Anda café é bom, café num costuma falhá!"

um ótimo dia, mazal tov ao Shmil, até 120 com folga, e que certamente hoje me perdoará pelos erros (propositais) em meu português:-)
Postado por Uri às 11h03
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Que triste, Sr. MASP!!!

Logo pela manhã, acordamos com a seguinte notícia de Mônica Bergamo para a Folha de S. Paulo:
Criminosos levam, na madrugada de 5a feira, Picasso e Portinari do Masp (Museu de Arte de São Paulo), o maior museu da América Latina.

Foram furtadas "O Lavrador de Café", de Portinari, e "O Retrato de Suzanne Bloch", de Picasso.
A ação foi rápida e precisa: os ladrões sabiam as obras que queriam levar da instituição. As câmeras do museu registraram tudo e servirão de base para as investigações. Que o MASP recupere rapidamente suas obras.
Postado por Uri às 10h34
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parashá da semana - Vaiechi
Compartilho novamente a parashá desta semana, Vaiechi, penúltima de 2007, escrita para o folheto semanal Congregar, da CIP.
abraços,
Congregar Parashát Vaiechi – 21-22 dezembro 2007 / 12-13 Tevet 5768
Bênçãos aos nossos filhos e netos
“E se aproximaram os dias de Israel morrer, e chamou a seu filho, a José.” (Gênesis 47:29)
“E se aproximaram os dias de David morrer, e ordenou a Salomão, seu filho.” (1 Reis 2:1)
Com estas orações da parashá e da haftará de Vaiechi, nossos sábios conectaram as vidas de dois líderes que marcaram o destino do povo judeu: Jacob e David.
Jacob reuniu todos os filhos em seu redor e anunciou o destino de cada um:
Rubem: não terá a vantagem de ser o primogênito, por ter sido afoito e se deitado com Bilá (Gênesis 35:22), uma das concubinas de Jacob, logo após a morte de Raquel.
Simão e Levi: violentos (mataram Shechém e seu povo, por vingança ao ocorrido à irmã, Diná), serão espalhados em Israel.
Judá: “o filhote de leão”. Terá o respeito e o comando sobre os irmãos.
Zevulun: habitará no litoral e sua terra será um porto de navios.
Issachar: por achar que o descanso era bom, sujeitará seu ombro à carga.
Dan: será um juiz atento sobre seu povo.
Gad: atacado por exércitos, reagirá e os fará retroceder.
Asher: seu pão será farto, fará delícias reais.
Naftali: proferirá falas encantadoras.
José: “Que o Todo-Poderoso te abençoe com bênçãos de poder e amorosidade”.
Benjamin: “o lobo”, pela manhã comerá a presa e à tarde compartilhará os despojos.
Antes, Jacob abençoara José, com as mãos pousadas sobre os netos Efraim e Menashê, oração com a qual hoje abençoamos nossos filhos e netos:
“O anjo que me salva de todo mal abençoará os jovens, e será chamado neles o meu nome.” Por sua vez, David abençoou seu filho Salomão com as seguintes palavras: “Se teus filhos guardarem os seus caminhos e trilharem diante de mim fielmente, de todo o seu coração e de toda a sua alma, nunca te faltará sucessor...”
Que nossos filhos e filhas, netos e netas, sejam sempre abençoados e optem pelo caminho do bem, aos olhos de seus pais e de Deus.
Shabat Shalom,
Uri Lam, de Buenos Aires
Postado por Uri às 10h40
na categoria: judaísmo
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Steinsaltz: Cuidados para um julgamento justo
Compartilho com vocês mais um estudo do Talmud, do rabino Adin Steinsaltz. Desta vez, fala dos cuidados que se deve tomar para que um julgamento não seja distorcido por favorecimentos de qualquer ordem. Nada mais... atual. Abraços e bons estudos,
Uri Lam
Steinsaltz Daf Yomi
Ketubot 106a-b
16 de dezembro de 2007
O Talmud (na Guemará) está discutindo assuntos de suborno e o cuidado que um juiz deve ter para assegurar que a sua decisão estará livre de qualquer dano. Uma das histórias relacionadas pela Guemará conta de Rav Anan, que se recusou a aceitar uma cesta de peixes de alguém que lhe pediu que julgasse o caso dele. Além disso, Rav Anan informou ao homem que ele não poderia agir como juiz para ele, pois a oferta da cesta de peixes poderia influenciar qualquer decisão futura a ser tomada por ele. Não obstante, após escutar o argumento do homem de que deveria lhe ser permitido dar um presente para um estudioso de Torá, uma vez que isso é, em si mesmo, uma mitsvá (como fonte, o homem recorreu a um presente que foi dado ao profeta Elisha – veja 2 Reis 4:42), Rav Anan aceitou o presente e encaminhou o homem para Rav Nachman para julgamento.
Quando Rav Nachman recebeu a carta de Rav Anan, explicando que não poderia julgar o caso daquele homem e por isso encaminhava o caso a Rav Nachman, Rav Nahman assumiu que o homem devia ser alguém próximo a Rav Anan e que seria apropriado ouvir o caso dele antes dos outros casos que estavam na sua agenda. Quando a outra parte viu a honra que estava sendo dada a este homem, escapou-lhe a linha de raciocínio, não soube se defender e perdeu o caso.
Embora Rav Anan não quis que isso acontecesse, a sua resposta para a oferta do homem torceu a justiça. Em decorrência disso o profeta Eliáhu (Elias), com quem Rav Anan estudava regularmente, deixou de vir para estudar com ele. Só depois de jejuns e oração foi que Eliáhu retornou, mas a presença do profeta se tornou tão amedrontadora que Rav Anan teve que fazer uma caixa para ele ficar dentro enquanto aprendia. Os ensinos de Eliáhu durante aquele período são conhecidos como Seder Eliáhu Zuta, enquanto os ensinos anteriores são conhecidos como Seder Eliáhu Rabá.
Postado por Uri às 16h12
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